Era um ciclo, começa outro.

February 3, 2008 by Ricardo

E eu pensei que meu “calo de enterrar cadáveres” não ia mais crescer. Inocência minha. Eu, o cara que não aprendeu o instinto básico de sobrevivência do cansar de apanhar cansou de repetir o mesmo erro até que tudo pare.

Porque nada parou.

E não sabe mais se vale a pena salvar a alma pra não se tornar carrancudo. O calo já está carrancudo. Agora só protege a mão. O que segue é enterrar quem pedir.

Porque não dói mais.

Cacos

January 8, 2008 by Ricardo

Acredite. Abrir os olhos é mais traumatizante.
Amar quem não merece é uma coisa.
Descobrir que não merece é outra.

Como faz falta a aura que desenhei em volta dela… Que a protegia da minha razão impessoal, esclarecedora e inconseqüente. Como eu era antes dela. E como ela me preveniu de ser. Como eu queria continuar sendo. Pra continuar amando.

A infeliz razão me fez ver o que não iria nunca acontecer, mas que o amor mostrava. A triste verdade que se escondia nas mentiras que amava tanto. Amava cada mentira daquelas. Que construí com tanto amor.

Eu a amava e ela morreu. Cada mentira. E sinto falta. Mas confio na razão. Ruim é amar mentiras. Elas somem. E confio no tempo. Que cobrirá as mentiras com pó do desuso e meu amor com mais razão. E amarei outra coisa.

Se é que a verdade é amável.

A realizar

January 6, 2008 by Ricardo

Esse texto é porque a coisa mais emocionante que fiz nos últimos dias foi passear com a minha cachorrinha. O tédio é muito normal nas férias. Mas incomoda. E em pensar que tem tanto a ser resolvido no mundo lá fora. Também incomoda.

O ar paleativo das quatro paredes que me protegem dos conflitos criam outro. Interno. Tenho muito pelo o que lutar e ainda estou aqui, como quem diz “tenho que fazer isso” mas não faz nada.

Não quero dar uma de que não luto porque é difícil. É parecer mole, perdedor. Mas certas coisas são causas perdidas. Pelas quais prometi pelo menos me chaqualar pra conseguir.

A briga é entre a promessa e a sensação de perda.

E a contagem regressiva começa. Com uma solução para meu tédio.

Bem, e você?

January 4, 2008 by Ricardo

Médico: O que o traz aqui?
Paciente: Ando com um zumbido no ouvido nos últimos dias
Médico: E o resto da saúde?
Paciente: Ahh, eu tenho uma saúde de ferro!
Médico: Anda tendo dor de cabeça?
Paciente: Quase todos os dias …
Médico: Teve tontura?
Paciente: Sempre que eu sinto a dor de cabeça ….
Médico: E a garganta?
Paciente: Parece que tem uma colher de sal nela …
Médico: Intestino?
Paciente: Não funciona a muito tempo …
Médico: Anda dormindo bem?
Paciente: Não.
Médico: Você tá estressado, né?
Paciente: Bastante … =\

BlogBlogs.Com.Br

História Repetida

January 3, 2008 by Ricardo

– Isso é loucura! Não devíamos estar fazendo isso…, ela sussurra num tom quase que excitado e excitante.

– Qualé! Aproveita o momento! Vai dizer que preferia estar na aula?, retruca ele, irredutível senhor da razão.

– …, confirma a moça dando carta branca para a dita loucura dos dois.

Pode parecer mais uma cena noturna cotidiana nos terrenos vazios próximos às escolas de segundo grau. Alunos com “os hormônios à flor da pele” “curtindo a vida” em mais uma matança rotineira das aulas inúteis que compõem o currículo. Substituição das aulas por algo mais útil talvez seja mais apropriado para o momento.

Mas esse momento é especial. Não pra ele nem pra ela. Eles nem perceberam isso. Sim para as terceiras pessoas. Nessa noite a fila das almas destinadas ao inferno terrestre irá diminuir. Mas é uma alma com uma missão. Entre gemidos e suspiros na noite quente do prazer momentâneo de dois adolescentes, a senha de Osório foi chamada.

E foi chamada da pior maneira possível. Mãe solteira, sem futuro. Pai vagabundo. Avós simples. Mas uma coisa especial a mãe tinha: As aparências. Aparências que a falta de coragem obrigavam a ser tão profundas quanto poças de água na calçada. Resquícios do que um dia pode ter sido uma educação.

E a criança era especial. Osório veio com poderes. Não sobrenaturais do tipo de quem voa. Mas comuns, do tipo que todo mundo tem mas faz questão de não perceber.

Osório sente palavras. Cada palavra carimba sua alma com a marca de seu significado e cria nele experiências que ele também sente. Osório sente muito o significado das frases e a semântica de cada termo utilizado para a comunicação com ele. E absorve. E pratica.

Teve mãe nas horas vagas. Sobraram-lhe o avô e a avó. Faltou dedicação. Mas não faltou o resquício de educação que a mãe também recebera um dia. Resquício esse incorporado até a última gota e desenvolvido em seqüências de raciocínios lógico.

– Agradeça a Deus por ter alguém pra te sustentar!

– Ame o seu irmãozinho! (Era-lhe tio, mas sem problemas. O raciocínio lógico ajudou a expandir essa idéia.)

– Você deve tirar boas notas!

– Não minta!

– …

O imperativo era sempre uma ordem seguida com rigor hierárquico. Assim ele cresceu. O garoto que sentia palavras era bombardeado diariamente com restrições morais e civilizadoras. Assim confiou nos avós e na mãe. Assim, sem perceber, recebeu uma grande educação. Pareceu resquício em mãos inadequadas. Assim foi jogado no mundo, com o papel da alma marcado com as cicatrizes dos bons costumes para sempre.

Lá se viu estranho, viu pessoas estranhas. Alguns se suicidavam consumindo vários tipos de drogas até em praça pública, muitos respeitavam ninguém no trânsito caótico, pessoas egoístas, mesquinhas, hedonistas. Ninguém enxerga um palmo além do próprio nariz. Ninguém se importa com futuro. Ninguém tem compromisso com evolução.

Viu seu modo de vida ameaçado por uma cultura tão autodestrutiva. Procurou refúgio. Ele não poderia deixar toda a sua ideologia perdida. O que fazer? Porque eles todos fazem essas coisas que seus educadores não lhe permitiam que fizesse? Refúgio onde, se não vejo semelhante? Profetizar? Tanta gente? Dariam ouvidos se não aprenderam até agora?

E, para encontrar-se sozinho, procurou abrigo na solidão de uma biblioteca pública. Fez um passeio pelo acervo desatualizado e carente de recursos. Descobriu que existem as ciências. Além dele existem pessoas que buscam o saber das palavras. Complexo isso… Nas biografias descobriu que pessoas que buscam o saber também agem de forma estranha.

O que ele faz que é tão diferente dos outros? Ele faz questão de pensar. Analisar causas e conseqüências das ações realizadas por ele e por outros. Lendo mais descobriu que se continuasse assim seria crucificado.