As maiores lições dos piores momentos

Maio 30, 2008 por Ricardo

O shopping nem estava pronto, mas a coordenação insistiu em manter a data marcada para a inauguração. Entre os grandes projetos de lojas cobertas por tapumes e o barulho de operários fazendo as montagens do que será as prateleiras da adorada mercadoria, Ana caminhava apática pela enorme praça de alimentação.

Os últimos dias tinham sido estranhos. Parecia que, até aquele momento, cada folha que havia caído obrigava os ventos a trazer sua vida para os rumos em que estavam. Parecia que não havia mais controle algum sobre tantas ocasiões causadas pela força das ocasiões. Sua escolha já não importava: para ela, nenhuma ação seria capaz de mover alguma coisa.

Chegou a esse ponto depois de refletir sobre a decepção de tentar sem obter resultados. Esses últimos dias têm sido especialmente decepcionantes. E agora refletia sobre o ciclo que paiorou sobre esse momento de sua vida: Abalada pela baixa autoestima, não tinha ânimo para fazer algo melhor e superar as dificuldades. Assim, mais trabalho mal feito e mais decepção abatendo os ânimos da garota geravam apenas mais angústia.

Não havia mais capacidade de admirar-se com a vida. As trilhas percorridas na solução dos problemas não eram mais intrigantes à ponto de superar o tédio cotidiano.

O que faria agora? Sentaria para comer? Com fome não estava .. Mas precisava fazer algo… decidiu sentar-se em um sofá que estava próximo a uma das mesas da praça. Seria uma grande quantidade de opções caso estivesse tudo pronto. Como não estava, poucas lojas atendiam. Alguns fastfoods, restaurantes, burgers,… nada que a chamasse a atenção. Realmente não era comer que ela queria.

Algum tempo depois, como que do nada, uma outra menina aparece e acomoda-se no mesmo sofá e na mesa ao lado da de Ana. Também parecia estar ali para fazer nada, mas com pouco tempo retirou da bolsa um livro pequeno e com aspecto mal cuidado. Olhando com curiosidade, Ana viu que tratava-se da obra “A náusea”, de Sartre. No momento pensou “Essa deve estar pior que eu”.

Depois de um longo momento de silêncio, o que era uma identificação para Ana começou a tomar um caráter diferente. A nova amiga parecia hipnotizada pela leitura, bebendo calmamente cada palavra dita pelo escritor. Havia um interesse visível naquele ato de interiorizar o enredo que ia totalmente contra a idéia da alta carga de pessimismo associada aos trabalhos filosóficos, freqüentemente difundida.

A leitora ergueu os olhos num relance para descansar a visão e Ana desviou o olhar para não ser pega no ato da observação. Formaram-se complexas cadeias de pensamentos e idéias no interior de cada uma das duas. Ana estranhou tamanho interesse em ler uma obra que faz análise do absurdo da condição humana. A outra teve a sensação de que não analisava as idéias de Sartre sozinha.

Ana até apreciava a filosofia, mas nunca teve persistência para analisá-la a fundo. Sabia que muitas de suas vertentes existiam para analisar ao fundo a dor humana, e que Sartre pertence a essa linha. A figura de uma pessoa aparentemente feliz lendo uma obra com princípios existencialistas provavelmente não era uma das mais esperadas.

A dúvida é um dos principios da vida. Nesse momento, sem perceber, Ana começou a renascer. Estava engajada em compreender algo que via e parecia não fazer sentido. Aquilo lhe furtou o tédio, chamando sua atenção para coisas que não conhecia. Certamente ela não se deu conta disso no momento por estar distraída com algo. Era só o começo.

“Mas analisar problemas não deveria tornar as pessoas apreensivas?” E olhou para seu passado com todos seus traumas. Lembrou como teve que esquivar-se de todos, enterrando-os em algum lugar menos atingível da mente. No momento sua atenção migrou para alguns trabalhadores carregando uma placa a ser instalada no fastfood que nasceria próximo ali. Dizia qualquer coisa sobre aprender a ser feliz.

Aprender… Ela que gostava tanto dessa palavra, queria ser culta, conhecer o mundo com seus altos e baixos. “Há algo para se aprender com o que há de pior na existência humana?” Lembrou-se de vários amigos que extraíram valiosas lições aprendidas em passos tortos. Pensou em o quanto considerava covarde fugir de um objetivo ou uma obrigação. Imaginou a glória de se ter um objetivo cumprido.

Ela que tinha tanta sede de conhecimento, esquecia de tentar compreender e lutar pelo mais complexo dos mundos: o próprio.

Era um ciclo, começa outro.

Fevereiro 3, 2008 por Ricardo

E eu pensei que meu “calo de enterrar cadáveres” não ia mais crescer. Inocência minha. Eu, o cara que não aprendeu o instinto básico de sobrevivência do cansar de apanhar cansou de repetir o mesmo erro até que tudo pare.

Porque nada parou.

E não sabe mais se vale a pena salvar a alma pra não se tornar carrancudo. O calo já está carrancudo. Agora só protege a mão. O que segue é enterrar quem pedir.

Porque não dói mais.

Cacos

Janeiro 8, 2008 por Ricardo

Acredite. Abrir os olhos é mais traumatizante.
Amar quem não merece é uma coisa.
Descobrir que não merece é outra.

Como faz falta a aura que desenhei em volta dela… Que a protegia da minha razão impessoal, esclarecedora e inconseqüente. Como eu era antes dela. E como ela me preveniu de ser. Como eu queria continuar sendo. Pra continuar amando.

A infeliz razão me fez ver o que não iria nunca acontecer, mas que o amor mostrava. A triste verdade que se escondia nas mentiras que amava tanto. Amava cada mentira daquelas. Que construí com tanto amor.

Eu a amava e ela morreu. Cada mentira. E sinto falta. Mas confio na razão. Ruim é amar mentiras. Elas somem. E confio no tempo. Que cobrirá as mentiras com pó do desuso e meu amor com mais razão. E amarei outra coisa.

Se é que a verdade é amável.

A realizar

Janeiro 6, 2008 por Ricardo

Esse texto é porque a coisa mais emocionante que fiz nos últimos dias foi passear com a minha cachorrinha. O tédio é muito normal nas férias. Mas incomoda. E em pensar que tem tanto a ser resolvido no mundo lá fora. Também incomoda.

O ar paleativo das quatro paredes que me protegem dos conflitos criam outro. Interno. Tenho muito pelo o que lutar e ainda estou aqui, como quem diz “tenho que fazer isso” mas não faz nada.

Não quero dar uma de que não luto porque é difícil. É parecer mole, perdedor. Mas certas coisas são causas perdidas. Pelas quais prometi pelo menos me chaqualar pra conseguir.

A briga é entre a promessa e a sensação de perda.

E a contagem regressiva começa. Com uma solução para meu tédio.