História Repetida

Janeiro 3, 2008 by Ricardo

– Isso é loucura! Não devíamos estar fazendo isso…, ela sussurra num tom quase que excitado e excitante.

– Qualé! Aproveita o momento! Vai dizer que preferia estar na aula?, retruca ele, irredutível senhor da razão.

– …, confirma a moça dando carta branca para a dita loucura dos dois.

Pode parecer mais uma cena noturna cotidiana nos terrenos vazios próximos às escolas de segundo grau. Alunos com “os hormônios à flor da pele” “curtindo a vida” em mais uma matança rotineira das aulas inúteis que compõem o currículo. Substituição das aulas por algo mais útil talvez seja mais apropriado para o momento.

Mas esse momento é especial. Não pra ele nem pra ela. Eles nem perceberam isso. Sim para as terceiras pessoas. Nessa noite a fila das almas destinadas ao inferno terrestre irá diminuir. Mas é uma alma com uma missão. Entre gemidos e suspiros na noite quente do prazer momentâneo de dois adolescentes, a senha de Osório foi chamada.

E foi chamada da pior maneira possível. Mãe solteira, sem futuro. Pai vagabundo. Avós simples. Mas uma coisa especial a mãe tinha: As aparências. Aparências que a falta de coragem obrigavam a ser tão profundas quanto poças de água na calçada. Resquícios do que um dia pode ter sido uma educação.

E a criança era especial. Osório veio com poderes. Não sobrenaturais do tipo de quem voa. Mas comuns, do tipo que todo mundo tem mas faz questão de não perceber.

Osório sente palavras. Cada palavra carimba sua alma com a marca de seu significado e cria nele experiências que ele também sente. Osório sente muito o significado das frases e a semântica de cada termo utilizado para a comunicação com ele. E absorve. E pratica.

Teve mãe nas horas vagas. Sobraram-lhe o avô e a avó. Faltou dedicação. Mas não faltou o resquício de educação que a mãe também recebera um dia. Resquício esse incorporado até a última gota e desenvolvido em seqüências de raciocínios lógico.

– Agradeça a Deus por ter alguém pra te sustentar!

– Ame o seu irmãozinho! (Era-lhe tio, mas sem problemas. O raciocínio lógico ajudou a expandir essa idéia.)

– Você deve tirar boas notas!

– Não minta!

– …

O imperativo era sempre uma ordem seguida com rigor hierárquico. Assim ele cresceu. O garoto que sentia palavras era bombardeado diariamente com restrições morais e civilizadoras. Assim confiou nos avós e na mãe. Assim, sem perceber, recebeu uma grande educação. Pareceu resquício em mãos inadequadas. Assim foi jogado no mundo, com o papel da alma marcado com as cicatrizes dos bons costumes para sempre.

Lá se viu estranho, viu pessoas estranhas. Alguns se suicidavam consumindo vários tipos de drogas até em praça pública, muitos respeitavam ninguém no trânsito caótico, pessoas egoístas, mesquinhas, hedonistas. Ninguém enxerga um palmo além do próprio nariz. Ninguém se importa com futuro. Ninguém tem compromisso com evolução.

Viu seu modo de vida ameaçado por uma cultura tão autodestrutiva. Procurou refúgio. Ele não poderia deixar toda a sua ideologia perdida. O que fazer? Porque eles todos fazem essas coisas que seus educadores não lhe permitiam que fizesse? Refúgio onde, se não vejo semelhante? Profetizar? Tanta gente? Dariam ouvidos se não aprenderam até agora?

E, para encontrar-se sozinho, procurou abrigo na solidão de uma biblioteca pública. Fez um passeio pelo acervo desatualizado e carente de recursos. Descobriu que existem as ciências. Além dele existem pessoas que buscam o saber das palavras. Complexo isso… Nas biografias descobriu que pessoas que buscam o saber também agem de forma estranha.

O que ele faz que é tão diferente dos outros? Ele faz questão de pensar. Analisar causas e conseqüências das ações realizadas por ele e por outros. Lendo mais descobriu que se continuasse assim seria crucificado.

Ano Novo

Janeiro 2, 2008 by Ricardo

Começa mais um ciclo civil da organização civilizada humana. Já começou sem eu gostar de ver o dinheiro do meu IPTU sendo queimado naqueles fogos ridículos. Claro que eu não esperava muito no ritual de passagem de uma cidade com 10 mil habitantes.

Ritual de passagem. Exatamente isso. Como quando uma dança indígena, um baile de debutante ou uma formatura. Bom, diferente um pouco. No fundo, no fundo o ano novo marca uma repetição para termos uma nova chance de tentar a vida, agora com mais experiência.

Repetir as tentativas frustradas do ano velho sem repetir os erros deles. Tentar outras coisas, para as quais tivemos sucesso anteriormente. É um ritual de recomeço para fincar uma bandeirinha em nossas memórias dizendo: Começa uma nova fase do ciclo social.

Quem merece

Dezembro 30, 2007 by Ricardo
Quantas aparições meteóricas faz aquela pessoa… Quanto estrago causam os atritos… Como esconder as violentas crateras? Saudades e suspiros causa quando passa ao longe? E como contemplá-la tão rápido? Porque nada disso é bom o bastante para completar a vivência.

Tudo isso por querer olhar
para meteoros e meteoritos,
temporários.

Nunca estrelas, constelações inteiras
que, mesmo sem atenção,
nunca abandonam o céu de quem as vê.

Vivendo

Dezembro 29, 2007 by Ricardo

Por que o “GRAÇAS A DEUS!” na comemoração dela me incomoda tanto? Com todo seu esforço para atingir o que queria, ela certamente conseguiria sozinha. E falou como se Deus realmente à tivesse ajudado. Certo que não posso julgar sem saber o que realmente aconteceu. Sei que poderia sem a ajuda Dele, mas quem sabe o Todo Poderoso pegou na mão dela e a livrou da tarefa de realizar o que devia ter feito…

Mas continua a incomodar-me. Como Deus escolhe assim arbitrariamente alguém entre centenas dos que esforçaram-se? Como pode ser justo em uma escolha dessas? Como ela pôde saber que Deus a escolheu tendo esforçado-se? Como Deus pôde ajudá-la?

E o agradecimento veio do fundo do coração. Algo maior, que ela não poderia explicar. Deus sempre esteve nos bastidores das coisas que não conseguimos explicar. Que ela sabe o porquê de ter falado isso é fato. Que ela não conseguiria explicar é uma dedução minha.

E eu, por que me incomoda tanto? Talvez porque fui sempre cético, talvez por achar que Deus não deveria meter a colher em um assunto terreno do mortais. O incômodo talvez é por, no fundo, querer acreditar. Querer acreditar em algo maior que facilitasse a minha vida.

Pensando bem, aquela expressão deve significar mais que meus pensamentos invejosos. Ela recebeu um prêmio de si mesma e está orgulhosa, com toda a razão. Viu seu esforço recompensado. Mas não é egocêntrica. Teve a humildade de dizer que a vitória veio como fato natural, a partir de Deus. Naturalmente através do esforço.

Ela tem mais a ensinar do que meu preconceito previu. E eu, a aprender. Começando por engolir meu orgulho bêsta.

A queda

Dezembro 23, 2007 by Ricardo

Ossos quebrados são a melhor síntese de toda a situação. Mas há muito mais coisas entre o chão e o corpo que nossa vã filosofia pode imaginar.

Tudo pode começar com um “maior a altura, mais forte a queda”. Lógico. E quem não sabe voar direito não deveria se arriscar a grandes altitudes.

Mas há quem se arrisque. Lógico. Ingênuo, crédulo de suas falsas capacidades. A queda aqui referida foi acima de tudo um atestado de incapacidade. Algo marcado com dor em cada um de seus ossos partidos. Algo marcado em sua memória como uma experiência amarga.

Mas há uma experiência. Lógico. E de toda a experiência se tira uma lição de vida, por mais simples que seja. Aqui a lição não deve ser “nunca mais arrisque”. Isso é fuga. Mas o traumatizado com certeza olhará o penhasco com outros olhos e arriscará. Agora, experiente, numa altura menor. E assim calmamente atingir o objetivo.

Espera-se também que os ossos possam cicatrizar. Claro.